A História e Origem do Psytrance: Psicodelia, Goa e Contracultura

A História e Origem do Psytrance: Psicodelia, Goa e Contracultura

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Antes de mais nada, para entendermos a origem do Psytrance, assim como o conhecemos hoje, é necessário retornar às origens de suas vertentes, em uma viagem no tempo, por volta da década de 60, para um fatídico e conhecido lugar na Índia chamado Goa.

 

 

Goa, é um estado paradisíaco e litorâneo, localizado no sudoeste indiano. A cultura goesa, contudo, sempre foi extremamente rica e plural.

 

Assim como no Brasil, por volta de 1500, todo o estado de Goa foi colonizado por portugueses. A atual população de Goa ainda mantém tradições e influências lusitanas.

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Goa sempre foi um antro de música, festividades e contracultura. Nesse sentido, a influência de Goa e de tudo que ocorreu por lá, no mundo que conhecemos hoje, é muito maior que o próprio Psytrance.

 

Voltando à década de 60, no auge da contracultura, os hippies viajavam o mundo em busca de harmonia com a natureza e um estilo de vida mais livre e sincero.

 

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Exaustos pela vida pós-industrial que a sociedade – sobretudo nos EUA, empurrava “guéla abaixo”, os hippies realizavam longas viagens para vários lugares do globo (também espirituais).

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Acontece que muitos acabavam, enfim, parando em Goa.

 

Entre 1960 e 1970, milhares de jovens em busca de liberdade visitavam Goa. Acima de tudo, traziam a cultura ocidental e a psicodelia, ainda muito influenciada pelo Rock, Acid Rock, Blues e Reggae. Em Goa, celebravam extensas festas no litoral, muitas de longuíssima duração.

 

 

O movimento Hippie e a origem do Psytrance

 

Em 1960, o movimento hippie surgiu em São Francisco, EUA. Os hippies iniciaram um dos maiores movimentos de contracultura do mundo, podemos sentir a influência hippie em diversos assuntos até os dias de hoje.

 

Em outras palavras: seu estilo psicodélico, ousado e politizado foi inspirado em grandes viagens transcendentais, em busca de liberdade e em contrapartida ao capitalismo massivo instalado nos EUA.

 

A música hippie era, por diversas vezes, associada ao uso de drogas alucinógenas, principalmente o LSD.

 

anjuna beach a origem do psytrance hippie

Venda de “Manali Shit” em Anjuna Beach, uma espécie de haxixe artesanal. Foto: Arquivo/Hypeness

 

Seus primeiros expoentes foram Janis Joplin, Grateful Dead, Pink Floyd, Jefferson Airplane, entre outros.

 

Os hippies se espalharam por todos os países desenvolvidos — EUA, Canadá, Europa Ocidental. Muitos foram para as longínquas ilhas do Oceano Pacífico, Mediterrâneo (Ibiza), Índia, Tailândia e América do Sul, onde estabeleceram comunidades que ainda existem hoje. Goa é, talvez, o exemplo mais forte e mais associado à origem do Psytrance.

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O movimento Psicodélico e a origem do Psytrance

 

Primeiramente, o movimento psicodélico começou na década de 1960. A influência da arte psicodélica se manifestou principalmente por meio de pôsteres de shows de rock e festivais de música e, mais tarde, mudou-se para a era digital.

 

As bandas que representaram seus shows por meio desses pôsteres incluem The Doors, The Grateful Dead, Jimi Hendrix, The Beetles e muitos mais.

 

Na década de 1960, a juventude norte-americana repeliu as normas políticas e culturais conservadoras. Houve profunda insatisfação entre os jovens contra o governo devido à Guerra do Vietnã.  

 

Em uma tentativa de fugir desta realidade fria e sangrenta, uma grande parte da juventude americana começou a fazer experiências com LSD. Queriam se libertar dos laços da sociedade e formar um novo estilo de vida, que mais tarde veio a ser conhecido como Contracultura.

 

Nesse sentido, o movimento de contracultura foi influenciado principalmente por outros movimentos artísticos, que incluem o movimento Surrealista, Art Nouveau, Victorian Art e Pop Art.

 

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Entre as décadas de 1960 e 1970 surgiu a Psicodelia, um novo movimento gerado a partir da Contracultura e teve uma importância considerável no cinema, na música e no design.

 

Nesse meio tempo, a música se tornou extremamente importante pois os jovens começaram a se unir através da música. O show mais famoso da época foi o festival de Woodstock.                                

 

Os concertos e a música serviram de ferramenta para a formação da contracultura, com rejeição de todas as noções da sociedade, além de promoverem uma cultura alternativa e um novo modo de vida.

 

Como leis rígidas foram impostas pelo governo dos EUA, muitos dos hippies e psicodélicos vieram para Goa porque ela servia como um lugar de baixo custo de vida, os locais eram amigáveis, os hippies foram inspirados nas práticas espirituais e religiosas e, além disso, as praias serviam como um cenário natural.

 

Houveram artistas que migraram para Goa inicialmente tocando rock psicodélico nas festas. Mais tarde, as pessoas começaram a curtir EDM, levando à formação de um novo gênero musical chamado Goa Trance.

 

O que Psytrance significa?

 

Para entender a origem do Psytrance temos que analisar, além do contexto histórico-cultural, também a semântica da palavra. “Psytrance” é uma mistura de “Psychedelic” e “Trance”.

 

Por exemplo: O termo “Psychedelic” remete aos movimentos de contracultura hippies, que pregavam a psicodelia como forma de liberdade individual. Além disso, derivado do grego “psico” ou “psique”, onde a etimologia remente à “alma” e “atividade mental”.

 

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Hoje em dia, erroneamente, o significado da palavra “psicodélico” é divulgado como “estado alterado pelo uso de drogas”, porém, sua gênese não se resume somente ao uso de drogas.

 

Neste contexto, a psicodelia era extremamente associada à música, nesta época porém, a outros estilos musicais. O termo era muito utilizado tanto na América quanto na Europa.

 

Já o termo “Trance” há quem associe com gírias inglesas da época, algo como estado alterado de consciência que, naquela época, remetia principalmente ao uso de LSD.

 

Em uma extensa matéria escrita ao Redução de Danos Brasil, eu exploro mais detalhes sobre a relação do LSD com a contracultura dos anos 60 e 70.

 

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O nascimento da cultura trance e das festas gratuitas

 

Nos anos 70 e 80 as primeiras festas de longa duração e gratuitas eram feitas em Goa (Índia) por hippies. Sempre associado ao litoral indiano, a praia de Anjuna tornou-se rapidamente a mais famosa praia de Goa.

 

Nesta época tocava de tudo. De Pink Floyd ao Disco, e também outros estilos mais marcantes dos anos 80.

 

As raízes das festas de Goa remontam aos hippies de Nova York que empreenderam o movimento de contracultura. Nesse sentido, o movimento psicodélico se manifestava contra a guerra fria e contra o racismo, idealizando uma sociedade livre.

 

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Anjuna Beach, Goa. Foto: Arquivo/Ray Castle

 

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Manali Shit. Foto: Arquivo/Hypeness

 

Com o boom do acid-house, essas festas gratuitas começaram a chegar à Europa (primeiro Ibiza) nos anos de 86 a 87. Milhares de ingleses foram atraídos para as chamadas acid-party, que mais tarde ficaram conhecidas como o verão do amor.

 

Em Goa, a música eletrônica passou a ser introduzida pelo Dj Laurent. Pouco tempo depois o estilo musical já figurava permanentemente na cena de Goa.

 

Mas foi no início da década de 90 que, enfim, tudo mudou.

 

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O Goa Trance

 

No início dos anos 90 um novo estilo, mais ácido e transcendental começou a ser difundido nas praias de Goa.

 

Goa Gil, um dos maiores nomes no mundo do Psytrance até hoje foi o primeiro a desenvolver este novo gênero musical que se formava. Por esta razão ele é considerado o pai do Goa Trance, e o Goa Trance serviu de base para outras vertentes do Trance.

 

Antes de mais nada, o desenvolvimento deste “novo som” foi composto pela mistura de diferentes componentes musicais da época como: New Beat, New Wave, Electro e Psychedelic Rock.

 

Juntamente com Goa Gil, Ray Castle, DJ e produtor neozelandês, Fred Disko e Nick Taylor contribuíram, e muito, para a inicial aceitação e popularização da música eletrônica em Goa.

 

goa trance

Goa Trance. Foto: Arquivo/Hypeness

 

Uma parte dessa cultura inclui elementos do hinduísmo, budismo, contracultura, xamanismo como uma âncora para o berço do Trance: a Índia.

 

A essa altura, Goa era massivamente frequentada pelo resquício hippie das décadas anteriores e por diversos jovens de diversas classes e origens.

 

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Resultado? O Goa Trance, e o Trance propriamente dito, foi rapidamente difundido durante a década de 90 em diversos países como forma de contracultura.

 

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Países como Alemanha, Israel, Suécia, Dinamarca, Noruega, Rússia, Tailândia, Japão, EUA, México e Brasil, desenvolveram um ecossistema próprio em torno do Psytrance/Goa Trance e hoje, são os cenários mais aquecidos deste gênero que tanto amamos e de outras vertentes do trance.

 

Uma explicação extremamente sucinta que eu tomo a liberdade de parafrasear de um dos sites pioneiros no Brasil quando o assunto é Psicodelia (o próprio Psicodelia.Org):

 

“O que aconteceu em terras indianas foi que pegaram o 303 desta música e adicionaram elementos tribais e étnicos, em detrimento ao som urbano e industrial do estilo de origem. A este movimento, deu-se o nome de Goa Trance.”

 

A evolução do Psytrance até os dias de hoje

 

O que hoje chamamos de Trance ou Psytrance descende diretamente do Goa Trance, explorado e difundido por Goa Gil (e outros colaboradores) na Praia de Anjuna, em Goa, Índia.

 

Vale ressaltar também que a origem do Psytrance como conhecemos não é pontual. Uma vez difundido em Goa, este gênero alcançou diversos jovens de classes e origens diferentes e isso contribuiu para a criação de cenas e vertentes do trance diferentes, cada uma com sua particularidade e sonoridade.

 

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Podemos dizer então que o Psytrance é um gênero descentralizado e plural, que foi desenvolvido em diversos países no mesmo período. Todos expoentes do gênero, no entanto, carregam a essência e inovação que o Goa Trance trouxe ao mundo da música eletrônica — afinal, alguns outros gêneros da chamada Electronic Dance Music são mais “antigos” que o Psytrance.

 

qual é a origem do psytrance?

Shiva Moon 1997 (Foto: Udo Herzog)

O que agora conhecemos como Psytrance descende de Goa e desenvolve um som único e complexo com propriedades específicas, essa é a origem do Psytrance.

 

O Psytrance tem uma base rítmica poderosa que adiciona elementos acústicos ou eletrônicos, frequentemente executados ao vivo e de maneira espontânea. O gênero também se utiliza de sons sintetizados de instrumentos tradicionais como gongos, guitarras, bateria e outros, em suas diferentes vertentes do trance.

 

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Como qualquer outro bom gênero, o Psytrance se fragmentou em várias vertentes do trance: full on, psychill, darkpsy e psycore (forest, twisted, weird), hi-tech (mínimo de 160 BPM, também muito semelhante ao darkpsy e psycore), progressivo (uma mistura de psytrance e prog house), suomi (o “som finlandês”), psybient (o filho tranquilo de psytrance e illbient) e psybreaks.

 

No início dos anos 2000, artistas mesclaram o gênero com outras características. Diminuíram as melodias repetitivas, deram mais ênfase em elementos psicodélicos. Daí então nascia o Psytrance como conhecemos hoje, mais comercial e menos contracultura.

 

O estilo popularizou-se quando começou a ganhar o mundo. Países como Brasil, México e Japão tornaram-se cenas fortes e massivamente comerciais do Psytrance. Onde o estilo atingia o grande público, porém, de maneira “menos psicodélica”.

 

É impossível falar sobre a mudança do trance sem mencionar que o trance tem um certo estigma tanto na música eletrônica quanto na sociedade.

 

“Psytrance é realmente uma contracultura no sentido mais verdadeiro”, Clive Martin escreveu certa vez para a Vice . “A música é forte, as roupas são esquisitas, as drogas são fortes, as melhores festas são ilegais. Esta não é uma cena em que você pode entrar sem entusiasmo”.

 

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Quer saber ainda mais profundamente sobre os primórdios e a origem do Psytrance? Recomendamos o documentário Psytrance: A Way of Life. O documentário oferece algumas reflexões em primeira pessoa dos mais veteranos deste gênero, em outras palavras, uma visão única.

 

 

Alguns dos maiores artistas e DJs do psytrance são caras como a dupla israelense Infected Mushroom e o DJ / produtor israelense Astrix. 

 

Você também tem Barakuda da equipe PsyTribe de LA, Avalon de Londres, a velha escola como Raja Ram e Goa Gil, Suparna , Neelix, Bliss e assim por diante. Alguns nomes mainstream, como Carnage & Timmy Trumpet e Armin van Buuren & Vini Vici , também estão mergulhando no psytrance e expondo-o ao grande público, além de criar novas vertentes do trance.

 

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Seja como for, hoje a cena em Goa não é tão grande quanto costumava ser, mas nem por isso é menos intensa. Fora de lá, o Psytrance ganhou o Mundo! Além disso, inúmeras vertentes do trance surgiram, misturando as influência de Goa com as locais.

 

Atualmente existem grandes festivais que atraem muitas pessoas ao redor do mundo. Especialmente populares são Burning Man, nos EUA, Boom Festival em Portugal, Ozora na Hungria, Universo Paralello no Brasil e vários outros!

 

O Psytrance em Israel

Primeiramente, por uma série de motivos geopolíticos, o serviço militar em Israel é obrigatório. Isto é, todo jovem de 18 cumpre de 24 a 30 meses de serviço militar. E isso já é assim há um bom tempo!

 

Diante dessa dura realidade (e dos conflitos intensos que o país sofre constantemente), a juventude, desde a década de 80 e 90 busca também o seu êxodo. Atrás de tranquilidade e liberdade, era comum que jovens israelenses fossem atraídos para Goa — neste caso, a Índia até que não fica tão tão longe.

 

E esta geração que “passou as férias em Goa” fez toda a diferença! Hoje, Israel é um dos maiores exportadores de DJs e produtores de Psytrance pro resto do mundo. Lá o Psytrance e a EDM se tornaram tão populares ao ponto de tocarem em escolas e rádios, de maneira semelhante a outros estilos completamente diferentes e mais conservadores.

 

A verdade é que em Israel a formação de DJs e produtores de Psytrance é socialmente aceita e incentivada, além de qualquer outro lugar no mundo. Lá as escolas difundem e revelam novos artistas especializados no estilo psicodélico e conquistam cada vez mais adeptos.

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Em suma, Israel também é responsável por difundir várias vertentes do trance.

 

Israel, 1993:

 

 

Como o Psytrance chegou no Brasil?

 

A chegada do Psytrance no Brasil segue mais ou menos a mesma lógica apresentada neste post. Durante a década de 80 e começo dos anos 90, as influências e experiências feitas em Goa viajaram o mundo.

 

No Brasil existem alguns expoentes muito fortes, como a Dj Ekanta Jake, hoje um dos nomes por trás do Universo Paralello. Ekanta foi responsável por iniciar a disseminação das vertentes do Psytrance após voltar de uma viagem a Amsterdã — onde teve contato com o Goa Trance travestido de Psytrance.

 

Outro nome de peso na cena é o Dj Rica Amaral, um dos primeiros envolvidos no projeto XXXperience. Foi um dos primeiros a organizar festas de médio porte já em São Paulo, posteriormente, isto tornou-se a XXXperience.

 

Juntamente com Rica Amaral, Luiz Sala, o DJ Feio, foram os responsáveis popularizar o estilo open air de eventos no Brasil.

 

Inicialmente o Psytrance surgiu no Brasil pelo nordeste. Porém, quando atingiu a massa paulista foi que houve o grande “boom”.

 

Hoje em dia existem festivais de vários estilos, segregados, plurais, pequenos, grandes, raves, pvts, festinhas, festivais multiculturais… e por aí vai.

 

Em outras palavras: O Brasil tornou-se, então, uma das maiores cenas DO MUNDO na música eletrônica em geral. Hoje, estão presentes em nosso cenário diversas vertentes do trance, inclusive projetos nacionais que buscam resgatar o Goa Trance e o Psychedelic Trance.

 

Fontes:

 

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Biólogo, Fotógrafo e aluno do Instituto de Botânica de São Paulo. Atua no Portal Mundo como Editor-Chefe de Redação e Conteúdo e na Tv Mundo como Diretor.