Tudo que você precisa saber sobre Ecstasy (MDMA)

Tudo que você precisa saber sobre Ecstasy (MDMA)

mão segurando balas de ecstasy route 66

Primeiramente, entenda que Ecstasy é o nome popular e generalizado do MDMA em forma de comprimidos (balas). MDMA é a substância ativa encontrada na bala (que pode estar passível de adulteração).

 

 

Este artigo tem como objetivo elucidar questões e riscos sobre o consumo desta substância, não farei apologia ao consumo mas como estratégia de redução de danos é imprescindível o compartilhamento de conhecimento embasado cientificamente. O texto foi inspirado em publicações do IBMC (Instituto de Biologia Molecular Celular de Portugal) e está repleto de referências científicas ao longo do texto, sinta-se convidado a explorar os hiperlinks para ampliar sua rede de conhecimento.

 

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Sumário

 

 

 

O MDMA (ou 3, 4-metilenodioximetanfetamina) é uma anfetamina derivada pertencente à classe das drogas estimulantes do sistema nervoso central, também é popularmente conhecida como “droga do amor” e “da dança”.

 

 

fórmula molecular mdma ecstasy

Forma molecular do MDMA

 

 

Semelhantes ao MDMA temos as anfetaminas MDA, MDE e MBDB (compostos muito próximos ao MDMA mas que podem oferecer maior risco à saúde).

 

+ MDMA é utilizado com sucesso no tratamento do alcoolismo

 

O MDMA é uma droga sintética, ou seja, não deriva de substâncias encontradas na natureza (como é o caso do THC e do CBD na maconha), ele é fabricado em laboratórios atualmente com a finalidade de servir ao mercado de psicoativos, mas também servindo como via de tratamentos alternativos para alguns transtornos, em países que permitem a pesquisa. Mas nem sempre foi assim…

 

 

A história resumida do ecstasy

 

O MDMA foi patenteado no ano de 1912 pela companhia alemã Merck como droga coaguladora. A substância, no entanto, nunca foi comercializada e a patente não deixava claro o uso final do MDMA.

 

 

patente do mdma 1912 Patente do MDMA pela Merck em 1912. Fonte: https://www.mdma.net/merck/mdma-patent2.html

 

 

Em 1953 a anfetamina ressurgiu quando o exército americano, em plena guerra, testou várias drogas para uso militar. 

 

Nesse vai e vem o MDMA foi parar no laboratório de quem hoje é conhecido como o Pai do Ecstasy, Alexander Shulgin. O químico extremamente bem-sucedido, que chefiava o departamento de investigação bioquímica de novos defensivos agrícolas na Dow Chemicals (uma das maiores empresas químicas da época). 

 

Shulgin foi tão bem-sucedido na invenção de um lucrativo inseticida que ganhou seu próprio laboratório onde poderia conduzir quaisquer experiências. Sem nenhuma limitação.

 

Foi então que o americano aproveitou a oportunidade para investigar o uso de drogas psicodélicas, a fim de encontrar usos inesperados. Em sua autobiografia é citado o MDMA e outras 179 drogas psicoativas pesquisadas no laboratório de Shulgin.

 

Mas como de fato o MDMA foi parar nas vidrarias de Shulgin? Confesso que permanece um mistério, as informações que encontrei conflitam em datas e como o foco não é o bioquímico e sim a substância… deixei pra lá. A mais citada é que em meados da década de 70, Shulgin teve contato com o MDMA dentro de uma faculdade, através de um dos estudantes. Resolveu testar em si mesmo e acabou por enxergar um grande potencial para a substância.

 

Logo após o  suposto encontro, em 1977, Shulgin apresenta o MDMA a um amigo psicoterapeuta chamado Leo Zeff. O encontro mais uma vez foi tão poderoso que Zeff decide começar a viajar pelos Estados Unidos levando o MDMA a outros terapeutas e promovendo vários tratamentos utilizando essa substância.

 

Não se sabe ao certo como, mas o uso psicoterapêutico do Ecstasy  se espalhou, sendo considerado por muitos anos a “penicilina da alma”.

 

Uso terapêutico x uso recreativo

 

Rapidamente, do uso terapêutico o MDMA migrou para o uso recreativo. Extremamente popular em festas e no ambiente acadêmico das grandes universidades, nos anos 80 finalmente ficou conhecido como “Ecstasy“, em alusão ao estado de êxtase dos utilizadores.

 

Em 1984 a droga ainda era legalizada e seu uso era comum em locais casuais como bares, onde inclusive o ecstasy podia ser comprado com cartão de crédito.

 

Em 1985 foi proibido o uso de MDMA nos EUA. Ainda sim, seu consumo continuou a ser difundido pela comunidade de estudantes e em pouco tempo foi introduzido também na Europa.

 

Chegando na Europa o ecstasy confluiu com outro movimento que estava chegando no seu ponto de explosão: as raves

 

+ Staff da Tomorrowland confessou vender drogas no evento

 

Embora as raves tenham sua identidade cultural própria e sua formação partida de diversos lugares, com raízes em Israel e em GOA na Índia, em 1987 em Ibiza as raves aconteciam prematuramente em meio a outras festas hippie, todas regadas a muito LSD, maconha e agora… ecstasy.

 

Em pouco tempo as festas raves, bem como o ecstasy, espalharam-se por grande parte da Europa, com incrível adesão na Inglaterra.

 

 

rave anos 80 ecstasy

 

A oposição da população à cultura das raves e do uso de drogas cresceu e também mobilizou os poderes públicos do velho continente, as festas passaram a se tornar cada vez mais secretas, sendo organizadas e disseminadas por telefone. Em 1990 o governo britânico baniu, por lei, as festas raves.

 

Mas o uso das substâncias, como bem sabemos, e as festas raves continuaram. E hoje vivem um cenário gigantesco na mídia e na cultura jovem.

 

Composição das pastilhas de ecstasy

 

Um dos maiores perigos existentes no consumo de ecstasy é o baixíssimo nível de pureza das pastilhas comercializadas nas ruas. Muitas das vezes o ecstasy vendido tem diversas outras substâncias psicoativas misturadas e por vezes no lugar do próprio MDMA.

 

 

tipos de ecstasy Diferentes composições encontradas no ecstasy. Fonte: IBMC de Portugal

 

 

Algumas iniciativas em prol da informação e redução de danos analisam a composição das pastilhas de diversas origens, aqui no brasil temos vários coletivos de redução de danos que também fazem esse trabalho.

 

+ Coletivo faz testes de substâncias em raves pelo Brasil

 

Um dos maiores bancos de dados do mundo sobre ecstasy é o chamado Ecstasy Data que faz parte da iniciativa DrugsData, um programa independente e colaborativo de análise laboratorial que tem como objetivo quantificar os dados sobre a composição das drogas em circulação bem como seus adulterantes.

 

De grande parte dos comprimidos analisados pelo Ecstasy Data, mais de 40% não continham quantidades significantes de MDMA sendo quase que totalmente adulteradas. Cerca de 20% continham MDMA misturado com outras substâncias. Os dados são de 2010.

 

As drogas mais utilizadas para adulterar as pastilhas são as semelhantes ao MDMA como o MDA e MDE (também estimulantes), a cafeína, benzilapiperazina, cocaína, metanfetaminas, efedrina, ketamina e PCP (popularmente conhecida como pó de anjo), além disso podem haver adulterações com substâncias aleatórias que não necessariamente são psicoativas mas que podem causar danos a saúde.

 

+ Homem é preso vendendo Ecstasy falso feito com areia de gato

 

Efeitos do ecstasy adulterado

 

Alguns dos efeitos adversos provocados por esses adulterantes são: cafeína, efedrina, ketamina e anfetaminas vão diminuir os efeitos de empatia do ecstasy e aumentar a sensação de energia, podendo resultar em crises psicóticas. 

 

 

O MDA  embora muito parecido com o MDMA pode ser ligeiramente mais estimulante, proporciona também uma maior duração e em geral efeitos visuais mais marcantes. Em alguns estudos foi demonstrado que o MDA é muito neurotóxico, várias vezes mais que o MDMA.

 

O MDE ou MDEA é o mais similar ao MDMA, tem uma duração de efeito mais curta (2 horas) e picos de euforia menores, os efeitos táteis e físicos também são relatados como mais brandos. Na Europa o MDE é conhecido como EVA.

 

O MBDB, conhecido também como Éden. Não tem efeitos no sistema dopaminérgico e, portanto, é menos estimulante e menos neurotóxico que o próprio MDMA… sendo talvez uma adulteração que pode provocar frustração no usuário.

 

O DXM tornou-se comum na forma de ecstasy, principalmente nos Estados Unidos e pode ser extremamente nocivo. Atualmente é um fármaco legalizado que pode ser encontrado em baixíssimas quantidades em alguns medicamentos para tosse. Seu efeito, em doses muito concentradas pode se assemelhar à Ketamina ou Pó de anjo.

 

Uma dose muito elevada de DXM pode causar sensação de separação do corpo, perda de controle motor, náuseas fortíssimas, irritação da pele, respostas alérgicas, aumento exacerbado da temperatura corporal e quase que total inibição da transpiração. O DXM é muito mais perigoso que o MDMA e merece atenção!

 

Algumas dicas de redução de danos para MDMA: 

 

+MDMA: redução de danos e guia para um uso menos danoso

 

Formas de consumo e efeito imediato do ecstasy

 

Uma vez que já falamos sobre os possíveis adulterantes, vou te contar agora as principais formas de consumir ecstasy e os efeitos imediatos que esta droga produzirá em seu corpo. O Portal Mundo não faz apologia ao uso de drogas, sendo o caráter deste texto totalmente informativo visando levar conteúdo para que você, e só você, possa julgar suas escolhas baseadas em informações reais.

 

TODA droga produz algum efeito de risco na saúde humana, o consumo está passível de situações ruins para sua saúde mental e física. Reduza os danos.

 

Via de consumo: o ecstasy é frequentemente comercializado sob a forma de pastilhas, pois assim fica mais fácil seu armazenamento, distinção (pelo desenho da bala) e também adulteração. Muito raramente aparece na forma de pó, mas também pode ocorrer. Nesses casos o ecstasy pode ser inalado, fumado ou injetado.

 

 

vias de consumo mdma Vias de consumo. Foto: E-Drogas/IBMC

 

Após o consumo, um comprimido de ecstasy leva de 20 a 40 minutos para chegar no seu cérebro. Após 60 a 90 minutos o efeito atinge seu ápice, durando de 3 a 5 horas.

 

Alguns dos efeitos imediatos advindos do consumo de MDMA são: bom humor, energia, vontade de se comunicar, percepção sensorial aumentada, dissolução do medo, sensação de luz ofuscante e visão aumentada, perda de apetite, movimento REM dos olhos (como no sono), aumento do rítmo cardíaco, inquietação e descontrole emocional.

 

Os efeitos adversos consistem em: náusea, vômito, disfunção erétil, dificuldade de concentração, alteração na memória de curto prazo, sentimento de tristeza e angústia, necessidade de repetição do consumo, tensão muscular, bruxismo, psicoses e ataques de pânico.

 

Efeitos a curto e médio prazo

 

Nos dias seguintes ao consumo de MDMA alguns dizem sentir-se mais concentrados mas a grande maioria diz exatamente o oposto e aponta efeitos secundários negativos, como:

 

  • Dificuldade de concentração (1 – 7 dias)
  • Visão levemente turva (1 – 7 dias)
  • Confusão mental (2 semanas)
  • Tontura (até 4 semanas)

 

Para a grande maioria dos consumidores os efeitos secundários se alteram conforme a frequência e dose de consumo, com agravamento gradual dos efeitos. Também é comum o MDMA diminuir o efeito proporcionalmente ao aumento do consumo.

 

Efeitos a longo prazo no cérebro

 

O ecstasy interfere na liberação de serotonina, o neurotransmissor que regula nosso humor, sono, apetite e sensibilidade a dor. A ação do MDMA ocorre, portanto, diretamente nos neurônios serotoninérgicos.

 

O MDMA faz com que esses neurônios liberem uma grande quantidade de serotonina que está armazenada nos terminais axônicos (as “pontas” dos neurônios). A liberação massiva de serotonina é, basicamente, o que produz os efeitos do ecstasy.

 

Funciona assim: o MDMA entra no terminal axônico do neurônio através dos transportadores de serotonina (mecanismos que garantem que a “ponte” seja feita). O grande trunfo é que o MDMA tem grande afinidade química pelos transportadores de serotonina.

 

Ao utilizar o transportador para entrar dentro do neurônio o MDMA altera a conformação da proteína de transporte e inverte seu funcionamento, ou seja, o transportador passa a levar serotonina do terminal axônico para a sinapse e o MDMA o caminho inverso, aumentando assim muito a quantidade de serotonina no sistema.

 

Obviamente que essa é uma explicação básica sobre as interações bioquímicas e fisiológicas do MDMA em nosso corpo. 

 

O que se sabe também é que as moléculas de serotonina excedentes, uma pequena parte delas, passa a ser metabolizada pela MAO, uma enzina que transforma a serotonina em um outro composto que não atua como neurotransmissor.

 

O grande problema é que quanto a MAO metaboliza a serotonina, forma-se então o Peróxido de Hidrogênio, que pode se tornar um composto mais nocivo com radicais livres de oxigênio que são os principais agentes no envelhecimento precoce das células.

 

O nosso corpo possui enzimas que nos protegem do peróxido de hidrogênio, transformando em outros compostos não nocivos, são os chamados antioxidantes. No entanto, quando a quantidade de peróxido produzido é muito grande (como com o uso de MDMA) as enzimas antioxidantes podem não dar conta e se tornam insuficientes.

 

Mais um agravante: a medida que a temperatura corporal sobe, as enzimas antioxidantes também perdem seu poder, se tornando mais “fracas”.

 

Como o ecstasy produz mais serotonina, que por excedente vai produzir mais peróxido de hidrogênio e, além disso, aumenta a temperatura corporal. Podemos dizer que o consumo de MDMA a longo prazo pode resultar em formas nocivas de acúmulos de radicais livres em nosso corpo, desencadeando uma série de problemas de saúde e envelhecimento precoce.

 

O artigo ficou extenso mas o intuito era justamente trazer o máximo de informação a respeito dessa substância para você se empoderar deste conhecimento.

 

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